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quarta, 17 de agosto de 2022

Serviço de ‘streaming’ detalha escândalos revelados pela CPI da Covid

'Corrida das Vacinas', documentário produzido pela GloboPlay, apresenta depoimentos, entrevistas e detalhes levantados pela CPI para a compra suspeita de imunizantes.

5 de outubro de 2021

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A compra de vacinas por meio de intermediários, como a Davati e a Precisa Medicamentos, é uma das linhas de investigação da CPI que é detalhada em documentário (Foto: Reuters)

A Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19 do Senado Federal planeja a leitura e a votação do relatório final para o dia 20 deste mês. Até lá os senadores terão participado de 66 sessões para tomada de depoimentos e votação de requerimentos. O resumo deste trabalho concentra-se em duas linhas: omissões do Governo Federal e corrupção na compra de vacinas. Esta última, ganhou as telas dos serviços de streaming.

Sobre esta segunda linha de investigação da CPI, o serviço de streaming da Rede Globo, o GloboPlay, lançou no último dia 30 de setembro um documentário em dois capítulos que traz o resumo das negociatas e trapalhadas do Governo Federal para a compra das vacinas AstraZeneca, oferecida pela empresa Davati Medical Suplly, e Covaxin, negociada pela empresa paranaense Precisa Medicamentos.

O documentário batizado de “Corrida das Vacinas” é dirigido pelo jornalista Álvaro Pereira Júnior e detalha em minúcias os absurdos ocorridos durante negociações com personagens obscuros e sem qualquer ligação com a venda de medicamentos. O jornalista teve acesso, inclusive, a reuniões do grupo majoritário da CPI, o chamado G7, formado por senadores independentes e de oposição ao governo Jair Bolsonaro (sem partido).

Álvaro Pereira consegue entrevistas exclusivas com personagens centrais nas tramas que poderiam causar um rombo estimado pela CPI de mais de R$ 2 bilhões aos cofres públicos na compra de vacinas inexistentes, no caso da Davati, ou ainda não aprovadas pelas agências reguladoras de vigilância sanitária, como no caso da Precisa Medicamentos.

Davati / AstraZeneca

Um destes personagens surgidos durante a investigação da CPI é o cubano-americano Herman Cardenas, dono da Davati nos Estados Unidos. Ele é apresentado como um empresário que tem negócios milionários na área de Construção Civil, mas mantinha uma pequena operação para venda de medicamentos.

É nessa condição que ele é apresentado pelo coronel da reserva da Aeronáutica Gláucio Octaviano Guerra, que o introduz aos representantes comerciais Cristiano Carvalho e Luiz Paulo Dominguetti, ambos ouvidos na CPI da Covid.

“Não foi eu que procurei o Brasil, foi o Brasil que me procurou para intermediar a compra de vacinas”, falou Cardenas ao explicar como se envolveu na negociação que prometia entregar 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca, produzida pelo laboratório de mesmo nome em parceria com a universidade de Oxford na Inglaterra. No Brasil, a empresa credenciou a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para receber a tecnologia da vacina e assim vender diretamente para o governo brasileiro.

Com uma carta de representação da Davati, Cristiano e Dominguetti contaram com a intermediação do reverendo Amilton Gomes de Paula, da ong Secretária Nacional de Assuntos Humanitários (Senah), para participar de uma reunião, no dia 2 de março deste ano, com o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, coronel Élcio Franco e apresentar a proposta de venda. Eles conseguiram chegar ao mais alto escalão da pasta por meio de outro coronel, Hélcio Bruno, do Instituto Força Brasil, que era colega de turma de Élcio Franco na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Todos estes citados foram ouvidos pela CPI em diferentes momentos e negaram a intenção de conseguir contratos fraudulentos.

O negócio só não foi fechado porque no dia da apresentação Cristiano Carvalho revelou a cúpula militar do ministério, que contava com Élcio e ainda outros três coronéis, que uma proposta semelhante fora apresentada ao então diretor de Logística do ministério Roberto Ferreira Dias num jantar no restaurante Vasto no dia 25 de fevereiro. “A partir daí, os coronéis se entreolharam e o negócio não foi para frente”, revela Cristiano no depoimento a CPI.

No jantar do dia 25 de fevereiro deste ano, Roberto Ferreira Dias foi apresentado a Luís Paulo Dominguetti por um outro coronel, Marcelo Blanco, que havia sido assessor do Ministério da Saúde até 19 de janeiro. Foi nesse jantar no Vasto que Roberto Ferreira Dias cobrou, segundo Dominguetti, uma propina de US$ 1,00 por cada dose da vacina AstraZeneca comprada pelo Ministério da Saúde. Na avaliação do vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede/AP), esse jantar serviu para celebrar a compra da vacina Covaxin, fechada no mesmo dia entre o ministério e a Precisa Medicamentos.

Covaxin / Precisa Medicamentos

O caso da compra suspeita da vacina Covaxin, produzida pelo laboratório indiano Bharat Biotech, chegou a CPI da Covid por meio do depoimento dos irmãos Miranda. Segundo eles, o contrato para a compra do imunizante, fechado exatamente no dia 25 de fevereiro, estava recheado de irregularidades, a começar pelo fato do medicamento não ter sua eficácia comprovada e não ter aprovação para uso nem da agência sanitária da Índia.

O deputado federal Luís Miranda (DEM/DF) e o irmão dele, Luís Ricardo Miranda, que é diretor de Importação do Ministério da Saúde, informaram a CPI que houve pressão da cúpula militar do ministério, de Roberto Ferreira Dias e do próprio dono da Precisa Medicamentos, Francisco Emerson Maximiano, para que Luís Ricardo liberasse rapidamente a Licença de Importação da Covaxin, documento que permitiria a cobrança da primeira parcela do contrato, que cobrava pagamento antecipado, feito para uma empresa que não constava do contrato, a Madison Biotech, que para completar estava sediada em um paraíso fiscal, Singapura.

Os irmãos Miranda levaram o caso ao próprio presidente Jair Bolsonaro em um sábado, 20 de março, e ele prometeu investigar o caso por meio do diretor-geral da Polícia Federal, que nunca foi acionado para isso. Com o depoimento deles, a CPI levantou a hipótese de que o presidente havia cometido crime de prevaricação, quando um funcionário público toma conhecimento de um crime, mas não faz nada para impedí-lo. Bolsonaro se defendeu dizendo que informou o caso ao então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que seria demitido do cargo dois dias após. Pazuello diz que passou o caso para Élcio Franco, que apurou e não constatou irregularidades.

Pazuello e Élcio Franco seguem trabalhando para o governo federal e deverão ser denunciados no relatório final do senador Renan Calheiros (MDB/AL), que deve ser lido na CPI no dia 19 de outubro e votado no dia seguinte.

A Bharat Biotech descredenciou a Precisa Medicamentos e o contrato para aquisição de 20 milhões de doses da Covaxin, ao preço de R$ 1,6 bilhão, foi cancelado.

Texto: Gerson Severo Dantas

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