segunda-feira, 24 de junho de 2024

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CAUSOS DE PARINTINS

O quinteto de bambas que fez o Festival de Parintins decolar

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O escritor e poeta Ezra Pound propôs a existência de três classes de criadores: “inventores”, os que descobrem um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo, “mestres”, os que fazem várias combinações do processo inicial e se saem tão bem ou melhor do que os inventores, e “diluidores”, aqueles que vieram depois e não foram capazes de realizar tão bem o trabalho.

Ezra Pound falava de literatura. Mas a gente pode usar seus argumentos para falar de música. Tomando como exemplo o baião nordestino, Luiz Gonzaga, nos anos 1940, desenvolveu uma maneira particular de tocar o baião. Ele não era bem um compositor ou um letrista (poesia mesmo quem fazia eram os seus parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas), mas Gonzagão acabou sendo respeitado como um autêntico inventor.

Um estilo musical nem sempre nasce pelas mãos de um homem só. Uma pessoa pode criar um modo diferente de tocar um ritmo (como João Gilberto e seu violão “bossa nova”), mas quase sempre há um conjunto de outras pessoas (arranjador, letrista, intérprete) que contribuem para que a “invenção” tome sua forma final.

Mozart foi um mestre que não inventou a ópera, mas suas óperas são de uma excelência que seus predecessores não tinham alcançado. Na maioria das vezes, essa fronteira entre inventor e mestre é muito pequena, pois na medida em que um músico usa um estilo pré-existente e insere nele novas combinações harmônicas, rítmicas e estruturais, há um componente de invenção e originalidade que não se pode subestimar.

Nas toadas de Parintins, um pequeno grupo de “inventores” foi decisivo para que a qualidade das composições atingisse o nível de qualidade que perdura até os dias de hoje: J. Carlos Portilho, Chico da Silva, Emerson Maia, Fred Góes e Ronaldo Barbosa.

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Mas o culto ao inventor, como já ensinou o poeta, crítico literário, filósofo e escritor Antônio Cícero, irmão da cantora Marina Lima, também é frequentemente associado ao slogan “make it new”, de Ezra Pound, que pode literalmente ser traduzido por “faça-o novo” e, menos literalmente, por “faça o novo”.

Na Atenas clássica, Isócrates já dizia que o importante não é fazer o mais novo, mas o melhor. O poeta Haroldo de Campos interpreta “make it new” como uma exortação a “remastigar a herança cultural universal para nutrir o impulso: renovar”.

A injunção de Pound também deve ser entendida a partir da definição que ele próprio dá para a literatura como “news that stay news”: novas que permanecem novas, novidades que permanecem novidades. O novo que permanece novo não é simplesmente “o novo”, mas aquilo que não envelhece. “Um clássico é um clássico”, afirma Pound, com toda razão, “porque possui um certo eterno e irreprimível frescor”.

Os poetas líricos gregos pensavam desse modo. Os poetas épicos haviam considerado as Musas – as deusas que inspiram os poetas – como filhas da Memória. Supõe-se, às vezes, que isso representasse o reconhecimento da importância da memória e da memorização para a poesia oral. Outra hipótese é que esse mito refletisse o fato de que os poemas épicos preservavam a memória de feitos originários da comunidade.

Os poetas líricos, porém, compreenderam que o que preservava a memória dos feitos da comunidade era a memorabilidade dos próprios poemas que cantavam tais feitos. Para eles, o feito mais memorável de todos era, portanto, o próprio poema. A memória da Guerra de Tróia era preservada, não tanto porque fosse, ela mesma, memorável, mas em virtude da memorabilidade do poema que a cantava, a “Ilíada”.

Nesse sentido, as Musas eram filhas da Memória porque representavam a fonte da qualidade (divina) que tornava os poemas deles – mesmo quando não tratavam dos “grandes temas”, mas apenas, por exemplo, dos seus amores – inesquecíveis, memoráveis, dotados de “eterno e irreprimível frescor”.

Foi trilhando nessa mesma senda e utilizando como matéria-prima o mesmo espírito criativo dos antigos poetas líricos da Grécia antiga que J. Carlos Portilho, Chico da Silva, Emerson Maia, Fred Góes e Ronaldo Barbosa produziram o mais bem-acabado repertório de toadas do Festival de Parintins, quase todas hoje incluídas na categoria de verdadeiros clássicos do dois-pra-lá-dois-pra-cá.

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