sexta-feira, 14 de junho de 2024

faça parte da Comunidade RT1

PESQUISA

Covid-19: negacionismo científico impediu Brasil ter vacina própria

Um novo estudo aponta que uma liderança anticiência impediram que o Brasil tivesse uma vacina própria.
COMPARTILHE
Covid-19,vacina
Falta de recurso e descrença na ciência durante os anos da pandemia atrasaram a produção de uma vacina nacional. (Foto: Agência Bori)

Um novo estudo aponta que uma liderança anticiência e o financiamento escasso em pesquisas impediram que o Brasil tivesse uma vacina própria para combater a Covid-19.

Pesquisadores da Universidade da Geórgia do Sul (Georgia Southern University – Estados Unidos) e da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP) descrevem como a agenda política do governo do ex- presidente Jair Bolsonaro durante os anos da pandemia atrasaram a produção de um imunizante nacional apesar do histórico bem-sucedido do país em epidemias anteriores.

O artigo foi publicado na revista científica “Studies in Comparative International Development” nesta quarta (8).

Ao analisar o histórico de iniciativas brasileiras em pesquisa, tecnologia e inovação na área de vacinas, os pesquisadores foram surpreendidos pelo fato de o Brasil não ter chegado a uma vacina própria contra a Covid-19 considerando os investimentos recentes na infraestrutura farmacêutica.

Além disso, “o amplo conhecimento, a experiência em programas de imunização e pesquisas clínicas, além de o Brasil contar com ótimos pesquisadores, já seriam motivos suficientes para que o país desenvolvesse sua vacina”, diz Matthew Flynn, professor de sociologia e estudos internacionais da Universidade de Geórgia do Sul e coautor do artigo.

Receba notícias do RT1 em primeira mão
quero receber no Whataspp
Quero receber no Facebook
Quero receber no Instagram

Em um contexto no qual os países ricos praticaram o “nacionalismo de vacinas” ao adquirirem quantidades dos imunizantes em desenvolvimento várias vezes maiores do que as necessidades de seus países.

O Brasil tinha algumas opções: comprar vacinas diretamente dos fabricantes; participar de iniciativas globais de distribuição de vacinas; firmar acordos de transferência de tecnologia com detentores de patentes; ou desenvolver e produzir vacinas locais. A última opção foi a alternativa de países como a Rússia, Índia, China e Cuba.

Para os pesquisadores, qualquer outro caminho que não fosse a produção de um imunizante próprio levaria a eventuais atrasos na distribuição das vacinas, seja por entraves na importação ou competição com países mais ricos para a compra.

Por sua vez, esses atrasos provavelmente resultaram em um maior número de mortes, aumento na disseminação da doença, confinamentos mais longos e maiores perdas econômicas.

“Tivesse sido uma prioridade desde os primeiros casos de Covid-19 no Brasil, o país poderia ter chegado a uma vacina eficaz própria ao mesmo tempo que a China, caso os ensaios clínicos fossem bem-sucedidos”, avalia Flynn.

O atraso brasileiro pode ser explicado pelas sucessivas reduções nos investimentos em pesquisa e desenvolvimento antes e durante a pandemia, explica Elize Massard da Fonseca, professora da FGV EAESP que também assina o artigo.

Neste sentido, Flynn cita o veto de Bolsonaro ao aporte de R$200 milhões para a pesquisa de vacinas proposto no orçamento do governo federal para 2021.

“Quando Bolsonaro assumiu o executivo, o negacionismo científico, que ditava a coalizão política, acentuou a resistência para investimentos em políticas de saúde baseadas em evidências, criando uma liderança política incompatível com o cenário para reduzir a dependência brasileira de vacinas estrangeiras”, afirma.

Sobre as possíveis futuras pandemias, Flynn se preocupa com a postura brasileira. Ele lembra que o cenário de mudanças climáticas e desmatamento de florestas intensificam o risco de ressurgimento de novos vírus.

“É preciso se preparar com financiamentos de longo prazo em pesquisas e desenvolvimento da estrutura farmacêutica nacional. Sem um fluxo contínuo de recursos e um compromisso sólido do governo com a ciência, o Brasil ficará, mais uma vez, dependente de acordos com os principais produtores de vacinas”, alerta o pesquisador.

Da Agência Bori

Leia mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

COMPARTILHE