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sábado, 25 de setembro de 2021

Psicóloga explica porque cenas de abuso sexual ‘gatilham’ quem já foi vítima

Para Tânia Pimentel, psicóloga especialista em abuso sexual infantil, 'é comum que a pessoa que foi abusada no passado se sinta culpada com relação ao que aconteceu'.

28 de julho de 2021

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Psicóloga indica terapia e limitação deste tipo de conteúdo (Foto: iStock)

Na última segunda-feira (26), um vídeo publicado pelo cantor Wesley Safadão no Instagram foi alvo de debate. O tema? Abuso sexual. Na imagem, várias crianças estavam reunidas em trajes de banho e brincando com água. Em determinado momento, um homem adulto abraça uma das meninas por trás e parece tocar nos seus seios, por cima do biquíni. Aparentando desconforto, ela se desvencilha e segue brincando.

Apesar de o cantor, os pais da menina e o homem envolvido negarem que se tratasse de um abuso, o assunto permaneceu entre os mais comentados do Twitter durante todo dia ontem (27). Uma parcela dos usuários criticou a postura de Safadão, que apagou as imagens e defendeu o amigo, garantindo que se trata de “uma pessoa de confiança” e dizendo que “a internet está doente”. Outra parcela, composta principalmente de mulheres, considerou que o vídeo um “gatilho”, por entenderem que o conteúdo remete a experiências que tiveram no passado.

A ex-atleta Joanna Maranhão, que sofreu abusos sexuais por parte de um treinador na infância, pediu que o vídeo não fosse reproduzido em suas redes:

Como ela, outras mulheres se sentiram mal ao verem a cena.

Gatilhos são fonte de sofrimento

De acordo com a psicóloga especialista em abuso sexual infantil Tânia Pimentel esse tipo de evento gera um trauma que só pode ser superado, em termos de sofrimento emocional, ao trauma gerado por uma guerra. “O abuso sexual em crianças e adolescentes mexe com a estrutura psíquica e gera consequências graves. É comum que a pessoa que foi abusada no passado se sinta culpada com relação ao que aconteceu. Ela pode ter a sensação de que permitiu e não fez nada depois ou de que tem menos valor que os outros — e por isso os episódios aconteceram com ela”, diz.

Quando uma cena semelhante à que foi vivida aparece em um filme, é relatada em um livro ou surge nas redes sociais, isso pode despertar um sofrimento que, até aquele momento, estava reprimido. “A pessoa imediatamente se coloca no lugar da outra e isso aumenta a sua angústia. É como se ela reeditasse uma vivência que foi muito sofrida”, explica.

No caso do vídeo postado pelo cantor, mesmo se tratando de uma gravação feita dentro de casa, com a presença de diversos outros adultos, Tânia entende os motivos pelos quais tantas pessoas que já foram vítimas de abuso se identificaram. “Não é raro encontrar abusadores que praticam os crimes em eventos sociais. Normalmente, eles são dissimulados e agem como predadores que conhecem suas presas. Agem de forma discreta para que os outros não percebam, seja simulando uma dança ou um carinho”, explica.

Nem todo gatilho é negativo

Apesar de serem fontes de sofrimento, a psicóloga não considera todos os gatilhos de traumas negativos. “Nos casos em que a pessoa nunca buscou um tratamento para aquilo que foi vivido, eles podem servir como um impulso para uma ação. Seja uma denúncia, um post nas redes sociais ou a procura de um profissional que possa ajudar a lidar com os sentimentos”, opina.

Como exemplo de como a repressão dos traumas pode ser negativa, ela cita o caso de uma paciente que guardou, durante 53 anos, o segredo de ter sido abusada sexualmente pelo pai e pelo irmão. “Aos 61 anos, ela sofria de depressão e uma série de doenças psicossomáticas. Foi somente depois de expor a ferida durante uma sessão e chorar ininterruptamente, por mais de 20 minutos, que conseguiu encontrar um caminho de melhora”.

No caso da paciente de Tânia, o gatilho foi uma novela que retratava cenas de abuso sexual na infância. “Ela contou que, sempre que uma cena desta determinada personagem estava para começar, ela saía de perto da televisão. Até que juntou forças e conseguiu encarar o problema”, diz.

Porém, se já é algo tratado em terapia, a indicação da especialista é de que o contato com esse tipo de material seja limitado. “Se os sentimentos já foram trazidos à tona, reviver demais o trauma é o mesmo que gerar uma dor desnecessária, por isso a indicação é de que se evite”.

Com informações do Universa UOL

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