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quarta, 22 de setembro de 2021

O telefone celular e o aumento da solidão do jovem da geração Z

Desde 2012, diversos trabalhos vêm apontando um aumento significativo de depressão, solidão, comportamento autoagressivo e suicídio entre os jovens da geração Z.

4 de agosto de 2021

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Solidão não necessariamente significa depressão (Foto: Depressão)

Com o retorno às aulas (presenciais ou híbridas) em diversas cidades do Brasil, uma questão adicional que vai exigir a atenção de pais e educadores é a saúde mental dos jovens. A pandemia representou uma carga extra nas emoções de crianças e adolescentes, agravadas principalmente pela mudança abrupta da rotina, pelo afastamento social dos colegas e pela presença mais próxima dos pais em seu dia a dia. A saúde mental dos mais novos, incluindo aqui a sensação de solidão, não se agravou apenas por causa da covid-19, ela já vinha dando sinais de piora há pelo menos uma década, período que coincide com um aumento importante da popularização de smartphones e de um tempo de uso de internet cada vez maior, sobretudo nas redes sociais.

O tema pode parecer repetitivo, mas uma nova análise, publicada pela equipe da psicóloga Jean Twenge, da Universidade Estadual de San Diego, no final de julho no periódico Journal of Adolescence, foi muito bem discutida em artigo da última semana do jornal The New York Times. O texto sugere que o uso maciço das tecnologias móveis é o principal suspeito nessa equação de escalonamento de adoecimento psíquico dos mais novos.

Geração Z e redes sociais

Desde 2012, diversos trabalhos vêm apontando um aumento significativo de depressão, solidão, comportamento autoagressivo e suicídio entre os jovens. A geração Z (nascida a partir de 1996) tem enfrentado uma adolescência mais turbulenta do ponto de vista emocional que as gerações anteriores.

O período coincide com a fase em que a maioria das redes sociais lançou “novidades tecnológicas”, com alto potencial de impactar as emoções e comportamentos de consumo digital e de interações entre as pessoas. O botão do “curtir”, as “repostagens”, a distribuição de conteúdos influenciada por algoritmos de engajamento, entre outros, são exemplos de mecanismos que podem tornar o uso de tecnologia muito mais “viciante”, ainda mais entre os mais novos. Navegar pelas redes produz reações intensas, que oscilam entre prazer e frustração, e essas emoções influenciam o modo como se consome tecnologia e os impactos na saúde mental. Esse efeito parece ser ainda mais cruel sobre as meninas e as garotas, que tendem a se comparar mais e a se cobrar cada vez mais.

Solidão aumenta

O Pisa (Programa Internacional de Avaliação do Aluno), coordenado pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), realizado a cada três anos em diversos países, inclusive no Brasil, para avaliar o nível de conhecimento dos estudantes, também inclui em algumas edições questões sobre solidão na escola. Os resultados, de acordo com a equipe de Twenge, mostram que essa sensação vem aumentando entre os jovens desde 2012, e que ela quase dobrou nos EUA e na América Latina nessa última década.

Os autores testaram outras hipóteses para justificar o aumento de solidão entre os jovens, como mudanças no tamanho das famílias, queda no PIB dos países, aumento da desigualdade social e do desemprego, além do acesso a celulares e tempo de uso de internet. A única correlação encontrada aponta a tecnologia como principal suspeita. Solidão não necessariamente significa depressão, mas aponta para emoções negativas capazes de minar a saúde mental das pessoas. Em 2019, em parceria com o Grupo Positivo, entrevistando jovens de 180 escolas públicas e privadas de todo o País, dentro do projeto Tecnologia e o Jovem, encontramos um resultado bem-parecido. Em resumo, quanto maior o tempo de uso de telas (sobretudo redes sociais), maior o risco de impacto na saúde emocional dos estudantes, principalmente entre as meninas.

Mas além de apontar a relação que o uso de tecnologia tem na vida dos indivíduos, seria importante pensar como ela impacta os padrões de funcionamento e relacionamento do grupo, já que as interações sociais são hoje mediadas pelas plataformas digitais. Quem já viu um grupo de jovens juntos sabe que é cada vez menos olho no olho e mais olho nas telas. E quais os impactos desse comportamento na sensação de solidão que cada vez mais jovens experimentam e que parece ter se acentuado na pandemia?

Já que não é possível nem desejável um retorno no tempo, dados os incontáveis benefícios da tecnologia, seria importante discutir e trabalhar com os jovens, na escola e em casa, algumas “zonas livres” de celular (durante aulas e refeições, por exemplo), uma entrada mais tardia dos mais novos nas redes sociais e, principalmente, uma educação digital para o melhor uso das tecnologias e plataformas digitais, ajudando crianças e adolescentes a limitarem seu tempo de uso e a criarem filtros para identificar quando esses espaços podem estar prejudicando suas emoções e sua qualidade de vida.

Texto: Jairo Bouer, para o VIva Bem do UOL

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